segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A DÉCADA QUE NÃO ACABOU


Na fachada do clube Caravaggio, no Centro de São Paulo, aproximadamente 50 pessoas aguardam ansiosamente em uma fila até serem recepcionadas por um hostess, caracterizado de nerd, para entrarem na festa.
Nem a chuva que caía sem parar na cidade foi capaz de esfriar a noite, pelo contrário. Do lado de dentro, o clima é quente. No lounge, uns se aglomeram no balcão do bar para descolar um drinque enquanto outros se jogam na pista de dança.
Essa poderia ser a descrição de qualquer balada, não fosse pela trilha sonora. Ao som das pick-ups do DJ Tonny, um público eclético, das mais diversas faixas etárias canta de forma performática “Volta pra Mim”, sucesso do grupo Roupa Nova. Trata-se da maior festa anos 80 da capital paulista, a Trash 80`s.
No meio da bagunça, um sujeito alto se destaca pela empolgação e pela precisão com que executa os passos das coreografias elaboradas pelos próprios freqüentadores da casa. Às primeiras batidas de “Ilariê”, da Xuxa, e “Thundercats”, do Trem da Alegria, ele já sabe o que fazer. É Jonathas Muller, um rapaz de 33 anos, que se divide entre a direção de uma creche e o amor pelos anos 80. “Venho quase todos os dias. Quinta, sexta e sábado. Venho há uns 4 ou 5 anos, praticamente desde que a festa começou. Até no natal, depois da meia-noite.”, conta Jonathas.
A paixão por essa década não faz parte da vida apenas de Jonathas. Nos últimos anos, reviver o tempo marcado por canções dos Menudos, da Cyndi Lauper e do Sidney Magal e por brinquedos como o “Aquaplay” e o “Genius” virou mania. Hoje, não é difícil encontrar outros “Jonathas” espalhados pelo país. Entre eles, muitos jovens de que mal chegaram a curtir essa época. É o que conta o cantor Ovelha, conhecido por sucessos como “Sem Você Não Viverei” e “Te Amo, O Que Mais Posso Fazer”: “Nos shows especiais que eu e outros artistas fazemos, a maioria das pessoas tem entre 18 a 25 anos. Então, acaba rolando um intercâmbio de culturas. A gente fala dos anos 80 e eles falam dos anos 1990 e dos anos 2000”.
O jornalista Marcelo Duarte tem uma teoria para esse fenômeno. Ele, que freqüentemente faz referências a essa década em seu programa “Você é Curioso?”, na Rádio Bandeirantes, atribui parte disso à influência dos pais da geração oitentista. “Como você tem uma memória afetiva muito grande por tudo isso, você acaba falando tanto que o jovem fica com curiosidade de saber o que tem de tão interessante e vai atrás”.
Esse estranho sentimento nostálgico que os anos 80 despertam entre os mais novos também chamou a atenção de Mariana Claudino, que, em parceria com o jornalista Luiz André Alzer, criou o livro “Almanaque Anos 80”, um guia de memórias e curiosidades dedicado a apaixonados como Jonathas Muller.
Recheado de fotos e descrições sobre tudo que marcou a década, o almanaque foi escrito incialmente para um público entre 25 e 35 anos. Após o lançamento, porém, veio a surpresa: “Na época, a gente pensou em leitores da nossa geração. Pura ingenuidade nossa! Soubemos que o livro atingiu um público muito maior, de 20 a 45 anos”, explica Mariana.
A exemplo do almanaque, festas, baladas e músicas não foram as únicas ferramentas que os adoradores do universo oitentista encontraram para mantê-lo vivo na memória. O programa de rádio Clube Anos 80 é um exemplo. Transmitido pela rádio Furb, de Santa Catarina, são duas horas de quadros que contam história das bandas, músicas e curiosidades dos anos 80. Para Fabrício Wolff, apresentador do programa, essa retomada se deve, principalmente, ao campo musical: “Hoje vivemos a era da não-música. As composições são muito ruins, não tem letra e quando tem são pobres na harmonia”.
Além de tudo isso, existem uma infinidade de sites na internet e mais de mil comunidades no Orkut, nas quais os aficcionados discutem sobre os mais diversos aspectos desse mundo: das músicas aos desenhos animados, dos brinquedos às roupas da moda. Jonathas, inclusive, faz parte de uma.
Mas o que faz pessoas como ele adorarem os anos 80? O que essa década teve de tão especial? O próprio Jonathas tem a explicação: “Os anos 80 atraem por conta de ter essa coisa exagerada, pelo brega, pela lambada, pelo Balão Mágico, pela Xuxa e a até mesmo pelo rock nacional. Sempre curti isso, antes mesmo de começar a freqüentar a Trash 80’s”.
A mania é tamanha que os amantes dos 80 já são considerados uma tribo. Pelo menos é que diz a cientista social Nathália Raggi: “Se eles vão em baladas juntos, gostam das mesmas músicas e tem uma mesma ideologia, no caso o amor pelos anos 80, podemos afirmar que eles são uma tribo”. Jonathas concorda: “A gente tem uma identidade própria”.
Mariana Claudino também sua versão para o sucesso dos anos 80. “Depois do Almanaque, comecei a conversar com as pessoas sobre essa saudade de décadas antigas. A minha teoria é que a cada 20 anos há uma volta ao tempo. Nos anos 80, a moda era as festas anos 60. Nos anos 90, as festas hippie dos 70 estavam em alta. Agora, é a vez de resgatar os anos 80. Daqui a pouco, é a vez dos anos 90. E assim por diante”.
Para Jonathas, mesmo que os anos 80 saíam de cena para darem lugar a outra década, o amor continuará. “O público sempre muda, daqui alguns anos, os costumes serão outros e outras décadas serão adoradas, mas para mim a paixão pelos anos 80 nunca vai passar”.


Publicado no Jornal Sul de Minas - http://jornalsuldeminas.com.br/tamaragaspar/index.php?option=com_content&task=view&id=57&Itemid=9 em 21/12/2008