domingo, 17 de maio de 2009

SE LIGA!!! NÓS ESTAMOS NA ESCOLA!!!

Drops sobre culturas juvenis contemporâneas


Elisabete Maria Garbin


Numa sala de aula, um jovem com os fones de um walkman nos ouvidos, sussurra, entusiasmado, um trecho de um rock pop nacional: é o amoooor, é o calooor que aqueece a allmaaa!!; enquanto outro gruda, sorrateiramente, em seus ouvidos o seu radinho de pilha [provavelmente para ouvir uma canção de sua preferência]. Num canto da sala, uma jovem 'devora' páginas de um livro de poesias, best seller do momento. Junto à parede, uma jovem digita um torpedo em seu celular; já outra tenta esconder, junto aos cadernos, a última edição de uma revista juvenil, que traz na capa o galã da novela do horário nobre. Um jovem, num outro canto da sala, aguarda a professora passar por entre as carteiras e mochilas 'da hora' espalhadas pela sala, para mostrar aos colegas uma tatuagem no ombro direito; e eis que adentra na sala, esbaforida, uma garota, desfilando um cabelo multicolorido, sussurrando aos colegas: pintei com papel crepom! Ao lado da janela, uma jovem escreve um bilhete para um colega: Eahe kra, vamu zoa nu xou dus omi? Toca um celular! e a professora [alheia a isso tudo?] segue explicando a matéria...

A essas alturas, meu caro leitor/professor, já deu para perceber que as cenas que descrevi podem ser de uma sala de aula qualquer, inclusive da sua. São expressões que trazem o gosto musical diferenciado dos jovens, sua literatura preferida, a escolha de suas vestimentas, suas linguagens, falam de seus territórios, suas marcas corporais que colaboram com a afirmação da sua existência aos olhos dos outros. Expressões essas, dentre tantas outras, que nada mais são do que diferentes práticas culturais do cotidiano destes jovens, e adquirem significados em contextos específicos, partilhadas [ou não] com seus pares e, às vezes, frente à tensões identitárias de toda ordem, levam a condutas compulsivas.

Das revoluções culturais do nosso tempo, a emergência da chamada 'cultura da mídia' - incluindo-se nela as tecnologias virtuais - em sua dimensão global, resulta numa espécie de mix cultural sustentado pelas diferenças nas condutas de jovens em suas práticas culturais que podem ser constatadas em grupos diversificados em uma mesma sala de aula. Somos interpelados incessantemente por símbolos do consumo que, ao mesmo tempo que nos constituem dessa ou daquela maneira, acabam sendo ressignificados a todo momento. Logo, se problematizarmos o conceito de juventude(s) com as lentes da cultura, podemos ver tais juventudes como, no mínimo, comunidades de estilos, atravessadas por identidades de pertencimento, desde o look de suas vestimentas e adereços, incluindo aqui estilos musicais, comportamentos, gírias, atitudes corporais, etc. Observe que alguns jovens em sua sala de aula usam um tipo de roupa que corresponde a um estilo musical que vêm consumindo neste momento, assim como outros dão seus sinais de identidade através de piercings, brincos, tatuagens e outros tipos de marcas corporais, buscando afirmar uma singularidade que já não indica uma forma de dissidência ou inconformismo sociais, e, sim, mais uma prática que simplesmente significa 'estar na moda', 'ser do grupo', e não 'protesto contra o sistema capitalista', ou 'protesto contra as regras hipócritas do mundo adulto'. A questão central está, então, em conhecer e entender esta mistura de ânsias e imaginários juvenis. Por isso pergunto: quantas vezes neste ano, meu caro professor, você foi a uma banca de revistas para buscar por aquelas destinadas ao público juvenil? Você já experimentou convidar seus alunos a musicar poemas de clássicos da literatura que são trabalhados em sala de aula? Conheces as bandas musicais preferidas dos teus alunos e alunas? Conheces as letras de algumas dessas músicas? Certo é que a juventude contemporânea tem se caracterizado por suas diferentes culturas, que afloram em muitos lugares, ao mesmo tempo, como a da geração zapping, da geração digital, das características de nomadismos, da linguagem do 'tipo assim', da 'parada animal', enfim, urge que nos percebamos - e também a nossos alunos e alunas - como sujeitos de uma condição cultural que através de inúmeros investimentos nos modifica, transforma e constitui diferentes maneiras de ser e estar no mundo.

Não fiquemos no passado, não julguemos e não condenemos preliminarmente, não façamos relações de causa e efeito entre determinadas manifestações juvenis E traços de caráter para não repetirmos os intermináveis [e cada vez mais aprofundados] choques de geração, sob pena de nos transformarmos em 'alienígenas' diante de nossos alunos e alunas[!]



Texto publicado no Jornal NH, suplemento NH na escola. Novo Hamburgo, 10 de setembro de 2005. Disponível em: www.ufrgs.br/neccso e www.ufrgs.br/neccso/gjovem

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