
Nem a chuva que caía sem parar na cidade foi capaz de esfriar a noite, pelo contrário. Do lado de dentro, o clima é quente. No lounge, uns se aglomeram no balcão do bar para descolar um drinque enquanto outros se jogam na pista de dança.
Essa poderia ser a descrição de qualquer balada, não fosse pela trilha sonora. Ao som das pick-ups do DJ Tonny, um público eclético, das mais diversas faixas etárias canta de forma performática “Volta pra Mim”, sucesso do grupo Roupa Nova. Trata-se da maior festa anos 80 da capital paulista, a Trash 80`s.
No meio da bagunça, um sujeito alto se destaca pela empolgação e pela precisão com que executa os passos das coreografias elaboradas pelos próprios freqüentadores da casa. Às primeiras batidas de “Ilariê”, da Xuxa, e “Thundercats”, do Trem da Alegria, ele já sabe o que fazer. É Jonathas Muller, um rapaz de 33 anos, que se divide entre a direção de uma creche e o amor pelos anos 80. “Venho quase todos os dias. Quinta, sexta e sábado. Venho há uns 4 ou 5 anos, praticamente desde que a festa começou. Até no natal, depois da meia-noite.”, conta Jonathas.
A paixão por essa década não faz parte da vida apenas de Jonathas. Nos últimos anos, reviver o tempo marcado por canções dos Menudos, da Cyndi Lauper e do Sidney Magal e por brinquedos como o “Aquaplay” e o “Genius” virou mania. Hoje, não é difícil encontrar outros “Jonathas” espalhados pelo país. Entre eles, muitos jovens de que mal chegaram a curtir essa época. É o que conta o cantor Ovelha, conhecido por sucessos como “Sem Você Não Viverei” e “Te Amo, O Que Mais Posso Fazer”: “Nos shows especiais que eu e outros artistas fazemos, a maioria das pessoas tem entre 18 a 25 anos. Então, acaba rolando um intercâmbio de culturas. A gente fala dos anos 80 e eles falam dos anos 1990 e dos anos 2000”.
O jornalista Marcelo Duarte tem uma teoria para esse fenômeno. Ele, que freqüentemente faz referências a essa década em seu programa “Você é Curioso?”, na Rádio Bandeirantes, atribui parte disso à influência dos pais da geração oitentista. “Como você tem uma memória afetiva muito grande por tudo isso, você acaba falando tanto que o jovem fica com curiosidade de saber o que tem de tão interessante e vai atrás”.
Esse estranho sentimento nostálgico que os anos 80 despertam entre os mais novos também chamou a atenção de Mariana Claudino, que, em parceria com o jornalista Luiz André Alzer, criou o livro “Almanaque Anos 80”, um guia de memórias e curiosidades dedicado a apaixonados como Jonathas Muller.
Recheado de fotos e descrições sobre tudo que marcou a década, o almanaque foi escrito incialmente para um público entre 25 e 35 anos. Após o lançamento, porém, veio a surpresa: “Na época, a gente pensou em leitores da nossa geração. Pura ingenuidade nossa! Soubemos que o livro atingiu um público muito maior, de 20 a 45 anos”, explica Mariana.
A exemplo do almanaque, festas, baladas e músicas não foram as únicas ferramentas que os adoradores do universo oitentista encontraram para mantê-lo vivo na memória. O programa de rádio Clube Anos 80 é um exemplo. Transmitido pela rádio Furb, de Santa Catarina, são duas horas de quadros que contam história das bandas, músicas e curiosidades dos anos 80. Para Fabrício Wolff, apresentador do programa, essa retomada se deve, principalmente, ao campo musical: “Hoje vivemos a era da não-música. As composições são muito ruins, não tem letra e quando tem são pobres na harmonia”.
Além de tudo isso, existem uma infinidade de sites na internet e mais de mil comunidades no Orkut, nas quais os aficcionados discutem sobre os mais diversos aspectos desse mundo: das músicas aos desenhos animados, dos brinquedos às roupas da moda. Jonathas, inclusive, faz parte de uma.
Mas o que faz pessoas como ele adorarem os anos 80? O que essa década teve de tão especial? O próprio Jonathas tem a explicação: “Os anos 80 atraem por conta de ter essa coisa exagerada, pelo brega, pela lambada, pelo Balão Mágico, pela Xuxa e a até mesmo pelo rock nacional. Sempre curti isso, antes mesmo de começar a freqüentar a Trash 80’s”.
A mania é tamanha que os amantes dos 80 já são considerados uma tribo. Pelo menos é que diz a cientista social Nathália Raggi: “Se eles vão em baladas juntos, gostam das mesmas músicas e tem uma mesma ideologia, no caso o amor pelos anos 80, podemos afirmar que eles são uma tribo”. Jonathas concorda: “A gente tem uma identidade própria”.
Mariana Claudino também sua versão para o sucesso dos anos 80. “Depois do Almanaque, comecei a conversar com as pessoas sobre essa saudade de décadas antigas. A minha teoria é que a cada 20 anos há uma volta ao tempo. Nos anos 80, a moda era as festas anos 60. Nos anos 90, as festas hippie dos 70 estavam em alta. Agora, é a vez de resgatar os anos 80. Daqui a pouco, é a vez dos anos 90. E assim por diante”.
Para Jonathas, mesmo que os anos 80 saíam de cena para darem lugar a outra década, o amor continuará. “O público sempre muda, daqui alguns anos, os costumes serão outros e outras décadas serão adoradas, mas para mim a paixão pelos anos 80 nunca vai passar”.



